Ruídos
- 7 de jul. de 2016
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Sempre fiquei analisando, com interesse, os ruídos de comunicação que ocorrem entre as pessoas. São os famosos mal-entendidos ou (indo no popular) “sobradas”, que sempre me fizeram rir muito. Eu já fui vítima de vários. Mas um foi especialmente curioso. Eu estava com minha filha passeando em um shopping da cidade e encontramos duas amiguinhas de colégio acompanhadas da mãe. Elas fizeram a maior festa ao se verem. E eu e a mãe delas achamos por bem trocar números de telefones para marcar um encontro para as pequenas brincarem juntas, “qualquer dia desses”.
Peguei um caderninho na bolsa e anotei o número da mãe. Em seguida, perguntei o nome dela. Foi quando tudo desandou. Ela disse “Náfea”. Eu repeti: “Náfea? Que nome diferente!”. Ela, que tinha a língua presa, riu, meio sem graça, e olhou para o nome Náfea que eu havia escrito. Despedidas feitas, eu e minha filha seguimos no passeio. Não deixava de martelar na minha cabeça aquele nome diferentão.
Semanas depois, falei para minha filha: “Tem visto Náfea no colégio? Precisamos marcar aquele encontro!” Minha filha: “Quem????”. Eu: “Náfea, mãe de fulana e sicrana”. Minha filha: “Mainha, o nome dela é Márcia”. Indignada, eu disse: “De jeito nenhum. Vou lhe mostrar no caderninho! Olha aqui! Escrevi e ela leu na hora e não desmentiu!”. Fui vencida pela lógica e a verdade. Não existia nenhuma Náfea... Morremos de rir e esse episódio ganhou fama na família. Mas confesso que até hoje fico pensando porque ela não me corrigiu na hora. O que ela deve ter pensado disso tudo? Não sei nem vou saber nunca! (E confesso que guardo até hoje o caderninho como um talismã...).
Outra vez foi com os meus cãezinhos, Chico Buarque e Che Guevara. Chico sempre assumiu o nome dele, tudo tranquilo, favorável. Mas Che, que era uma bola de pelo quando bebê, virou Fuinha desde novinho. Ele incorporou totalmente esse apelido. Então decidimos que seria Fuinha para os íntimos. Afinal, não se troca um nome revolucionário assim, como se não fosse nada demais.
O fato é que o apelido ganhou espaço demais na vida dele, que ficou conhecido até no pet shop como Fuinha ou Fuia. (Oh, vida de cão). Um dia, estou subindo no elevador do prédio com o funcionário do pet shop. Ele carregando Chico e eu, Fuia. Ops, Che. Daí subiu um casalzinho jovem e começou a fazer carinho nos dois. E veio a pergunta: “Como é o nome deles?”. Respondi: “Chico Buarque aquele e este Che Guevara”. O menino do pet olhou para mim, muito surpreso e até meio indignado, e disse: “Que nada, o nome desse é Fuia”. (Doido para perder a cliente. Humpf!). Silêncio mortal. Eu, gaguejando, comecei a explicar a confusão entre nome e apelido, mas o elevador, meu inimigo para sempre, parou no meu andar e eu só disse ao casalzinho: “Até logo”. O que devem ter pensado? Pobre de mim... Mas vivo acessando esse episódio “na nuvem” quando o dia está meio atribulado e tudo que preciso é rir de mim mesma.
Mas presenciei vários ruídos com outras pessoas também. Claro! Um deles foi histórico! Inventamos de improvisar um piquenique em um clube na bucólica Aldeia, perto do Recife, onde uma amiga da nossa família possuía casa de campo. Minha intuição dizia que aquilo não ia dar muito certo. Ninguém combinou nada para levar de comida. Bota improviso nisso. E cada um comprou o que foi mais fácil e prático para o almoço: galeto, lógico! Todos levamos galeto. Todos! Quando cada um ia abrindo os pacotes, surgiam os galetos. Começamos a rir. Rimos muito. “Meu Deus, vou passar um ano sem querer ver galeto”.
Os grupos familiares ficavam alegremente instalados em mesas e bancos de pedra espalhados pelo local. Nisso, numa mesa perto, uma mulher (que nunca vimos na vida) pegou nas mãos um pacote de... galeto... e disse “Quer?”. Ela mirava o nosso lado. Minha mãe, com ar de “você nem imagina o que tem aqui”, disse: “Não, obrigada, aqui tem muito já”. Só que a mulher estava falando com os seus parentes por trás da nossa mesa. Eu tinha visto que não era conosco, mas minha mãe, não. Nem precisa dizer que o episódio virou piada constante na nossa família. Ainda penso: “O que fez a minha mãe pensar que uma desconhecida iria oferecer galeto a ela?” Só há uma explicação: “trauma”.
Fico pensando o que seria da vida sem esses mal-entendidos, ruídos, trapalhadas, sobradas ou o que quer que se pode chamar desses momentos que geram constrangimento, mas, infalivelmente, garantem risos e gargalhadas durante um bom tempo. Aliás, quem não? Todo mundo coleciona alguns causos desses para contar! Que bom!


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