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Cada um com sua história

  • 7 de jul. de 2017
  • 5 min de leitura

Adoro entrar em livrarias para acompanhar os lançamentos, procurar alguma obra específica, dar uma olhada nos “mais vendidos” ou mesmo só para sentir o cheirinho dos livros. E se a livraria tem uma cafeteria, ah!, lá se vai outro motivo para adentrar aquele ambiente que para mim é sempre meio mágico.

Mas há em mim um incômodo recorrente ao observar a crescente exposição de livros na seção “autoajuda” (sim, tem seção específica!). Aliás, setor que cresce exponencialmente. Nas livrarias em aeroportos, então, esse “gênero” fica logo numa estante na entrada da loja, como se o viajante fosse um potencial ser vivente de brisas e sonhos infantis. Na verdade, como alguém que facilmente será cooptado pela indústria cultural da “literatura” (com bem aspas!), do modismo.

Nesta semana, visitei uma livraria no Recife muito bem estruturada, inclusive, integrante de uma rede nacional que já tem um nome bem conhecido na praça. Em vez de virar o rosto e desviar o olhar dos exemplares de autoajuda, desta feita fui ler os títulos expostos, um por um, e analisar as informações das capas. Deu curiosidade. Abri, folheei e senti um pouco o drama desse “nicho” de mercado.

Ai, ai... Para encurtar o caminho dessa prosa, seguem alguns dos títulos que manuseei:

“A lei do triunfo – 16 lições práticas para o sucesso”;

“Poder sem limites – O caminho do sucesso pessoal pela programação neurolinguística”;

“12 lições para ser o pai ideal”;

“Pense e enriqueça – Para mulheres”;

“Conquiste aquele cara em 60 dias – O programa comprovado para mudar o status de relacionamento em 2 meses”;

“21 dias para ter um casamento maravilhoso”;

“Como con$eguir um homem rico (o s é cifrão mesmo) – Dicas para encontrar amor e dinheiro”;

“10 segredos para se tornar uma mãe sem estresse”;

“Chega de carregar o mundo nas costas – 21 dias para mudar”;

“Segredos mágicos da sua mente – Ele convence pessoas, inspira plateias e transformará você”;

“O código da mudança – Como mudar hábitos e conquistar seus objetivos”;

“Ouse crescer – Encontre sua voz e deixe sua marca no mundo. Um guia prático para mulheres brilhantes como você”;

“Se você é tão esperto, por que não é feliz?”;

“O segredo do sucesso – 60 dicas do homem que transformou 12 reais em milhões”;

“O segredo das mulheres apaixonantes – Dicas para uma mulher moderna seduzir o homem certo e lidar com os homens errados”;

“Você é do tamanho dos seus sonhos – Um passo a passo para fazer acontecer e ter sucesso no trabalho e na vida pessoal”;

“Manual para não morrer de amor – Saiba como evitar os erros que podem arruinar seu relacionamento (ou colocar você numa cilada amorosa)”.

Não coloquei os autores (e autoras) porque não sou obrigada. Alguns são estrangeiros e outros daqui da terra brasilis... Mas há muitos autores de outros países, o que não surpreende, já que o Brasil é sempre o lugar para desaguar experiências que nem deram muito certo lá fora... Ah, o capitalismo...

Não deixo de pensar em Miró da Muribeca – e sua bela poesia que transcende às palavras escritas –, que não tem a chance de ser publicado por grandes editoras.

Procuro entender o que leva esse mercado de mentiras a ser tão crescente. Em que parte do percurso a humanidade se perdeu dela mesma para ceder a tanta receitinha pronta de promessa de vida feliz, amorosa, endinheirada e com muito, muito sucesso? Em que parte nós nos perdemos?

Acho que há um vazio existencial.

Os títulos parecem ignorar que muitas das transformações substanciais começam dentro da gente, e dependem de muitos fatores. Ocorrem de dentro para fora. E cada um tem seu tempo de maturidade.

Por outro lado, induzem a pensar que a responsabilidade do fracasso em que todo mundo está submerso se deve a uma culpa individual – claro, somos todos incompetentes. Do tipo: você só está assim porque não seguiu ainda a minha receitinha, oras!

Ou as pessoas não sabem que cada um de nós tem a sua história, a sua construção de vida, as suas buscas, as suas dificuldades (internas e externas), os seus caminhos particulares, únicos, singulares. E que, além disso, ser pobre ou rico no Brasil não é uma questão de escolha, na maioria das vezes. Bem como o critério de felicidade depende de tantos e tantos fatores.

Aliás, o que é ser feliz? O que é ter/ser um sucesso?

Imagine! Num país injusto e desigual como o nosso, com toda uma conjuntura sócio-histórica e econômica que determina o lugar onde estamos e de onde falamos, realizar sonhos materiais é algo completamente abstrato.

Enfim, são muitas forçações de barra para vender esses títulos. As informações que listei estão nas capas dos livros, na “cara” da publicação; ou seja, há o propósito da indução marqueteira à compra pelo consumidor final, por meio das promessas vazias.

Sem contar o reforço dos ideais capitalistas, do lucro e individualismo, do ter é melhor que ser. Basta ver as pérolas: “Como con$eguir um homem rico – Dicas para encontrar amor e dinheiro”; “A lei do triunfo – 16 lições práticas para o sucesso”; “Poder sem limites – O caminho do sucesso pessoal pela programação neurolinguística”. A essência humana, os valores, a ética, onde ficam?

Nem vou entrar aqui na seara do reforço dos piores clichês machistas sobre nós, mulheres. Aterrador.

Fico pensando quem são esses autores-deuses que detêm o poder da transformação pessoal – do outro. Que mandam o recado do seu poder: “Segredos mágicos da sua mente – Ele convence pessoas, inspira plateias e transformará você”. Não a mim, querido!

Gente, vamos acordar! Quem inspira os seres viventes a uma transformação pessoal ou coletiva, quem nos move com sua história, quem nos emociona com seu legado, quem nos faz caminhar com seu brilho, não tem a soberba de dizer que guarda em si todos os segredos e todos os caminhos do mundo. Tudo já começaria errado daí.

Eu, por exemplo, me inspiro com histórias de vida reais, verdadeiras, alicerçadas na superação, na coragem, na humildade. Uma Cora Coralina da vida, Patativa do Assaré, Paulo Freire, Frida Kahlo, Che Guevara, Nelson Mandela, entre tantos outros.

Gente que extrai criatividade da dor, das dificuldades – vivenciadas por eles ou seus irmãos. E tantas outras pessoas mais próximas, como o meu professor Luiz Momesso, exemplo de sabedoria e simplicidade. Ah, dava para fazer uma listinha bacana aqui, inclusive, com pessoas inspiradoras da minha própria família.

Mas nunca poderia seguir essas pessoas que admiro como "modelos". São como faróis que iluminam caminhos, alimentam o espírito e ativam a criatividade e os sonhos. São referências para a vida, para não desistirmos nunca.

E, olha, para alcançar transformação interior, melhor recorrer a umas sessões de psicanálise, investindo no autoconhecimento; seguir o budismo com seriedade e entender o seu lugar no mundo; buscar crenças que fortaleçam o espírito; fazer voluntariado; lutar em ambientes de militância revigorante, que ajudem a angariar mudanças para um coletivo. Reunir a família naquele almoço barulhento, ah, é bacana. Um grande amor faz muito bem. Sessões de cinema são um alento para a alma. Ler bons livros e viajar também são geniais para mudar modelos mentais enraizados na gente. Trabalhar dignamente. Ter amigos.

Com o valor de um livro desses de autoajuda, você vai numa cafeteria com pessoas queridas, trava conversas e risos edificantes, regados a um saboroso café quente ou um chá gelado. O valor de dois livros talvez dê para um vinhozinho tinto, degustado na calmaria. Certamente, você terá insights poderosos para transformar sua vida sem milagres.

Não precisamos alimentar a sanha do mercado editorial para acreditar que podemos promover mudanças de vida.

Sim, podemos sempre mudar nós mesmos e o mundo. Mas não existem fórmulas. Cada passo, uma história. E cada um com sua história de vida.

*A imagem desse post é uma colagem de fotos (feitas por mim) das capas dos livros das seção de autoajuda, durante a visita à livraria nesta semana.

 
 
 

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